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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Relacionamentos de Vitrine



Introdução

               Sábado à tarde, quase noite. Um burburinho que se mistura à diversidade de sons compõe uma sinfonia bem particular, marcando o ritmo dos passos da massa que flui pelos corredores lustrosos e coloridos.
          Os olhares são expressivos, pois denotam um sem fim de emoções que se contrapõem: sofreguidão e desinteresse, alegria e tristeza, satisfação e insatisfação, expectativa e decepção, aborrecimento e prazer, curiosidade e desinteresse, cansaço e vigor, entre tantas outras sensações.
            As tribos misturam-se por entre as vielas apinhadas, para tomar, cada qual seu espaço em territórios definitivamente demarcados por modelos, marcas e sabores. A impressão que se tem é que o mundo invadiu estes espaços ou que alguém, propositadamente, condensou os espaços urbanos em um labirinto de lojas, bancos, lanchonetes e locais de diversão, como um palco com múltiplos cenários, onde cada um tem seu papel definido.
            As pessoas que trafegam por essas “vias de sonho” (ou de pesadelo) parecem sob o efeito de hipnose, como se ao passar pelas portas que dão acesso ao interior desses locais, passassem a viver a ilusão de que sabem o que vão fazer ali. E isso ocorre, porque esses espaços foram construídos para nos dar a sensação de que entramos unicamente com um propósito predeterminado, sobre o qual temos controle, todavia, sua função real é nos introduzir, nos dominar e prender, no universo do consumo.
            É óbvio que o leitor já deve ter identificado que estamos falando de um shopping center. Mas o propósito deste texto não é tratar acerca dos shoppings e os serviços que neles encontramos. O âmago da discussão encontra-se no que eles representam como locais públicos dentro de um fenômeno que atualmente, tem-se mostrado bastante significativo e do qual se tornaram um ícone de indiscutível evidência: o consumismo.
            Mais do que tratar sobre consumismo, a ideia é refletir sobre ética em um mundo, onde somos tratados, essencialmente como consumidores e até como produto, onde somos “coisificados” e a felicidade é exposta como o grande fim a ser alcançado na vida.

Consumismo e Utilitarismo: a ilusão da felicidade efêmera

            O mercado, cuja ética é o lucro, apresenta o consumo como uma espécie de religião, não mais fundada em uma mensagem de insuficiência humana e dependente de um Senhor e Salvador com seus profetas para alcançar o paraíso, porém com a perspectiva de que somos capazes – e de que só cabe a cada um, a decisão de chegar à experiência máxima, a um alumbramento sem igual. De acordo com Bauman:

(...) desligado o sonho da experiência máxima das práticas inspiradas na religião, de abnegação e afastamento das trações mundanas, é necessário atrelá-lo ao desejo dos bens terrenos e dispô-lo como a força condutora de intensa atividade como consumidor. Se a versão religiosa da experiência máxima costumava reconciliar o fiel com uma vida de miséria e privação, a versão pós-moderna reconcilia seus seguidores com uma vida organizada em torno do dever de um consumo ávido e permanente, embora nunca definidamente satisfatório. Os exemplos e profetas da versão pós-moderna da experiência máxima são recrutados na aristocracia do consumismo – aqueles que conseguiram transformar a vida numa obra de arte da acumulação e intensificação de sensações, graças a consumir mais do que os que procuram comumente a experiência máxima, consumir produtos mais refinados e consumi-los de um modo mais requintado. (BAUMAN, 1998, p. 224)


            O ato de consumir passa, portanto, a funcionar como a panaceia que pode nos conduzir ao nirvana, onde somos plenamente felizes, e que serve como lenitivo para as frustrações cotidianas decorrentes dessa momentânea e ilusória satisfação, que encena uma experiência “sobrenatural”. Neste sentido, Bauman observa que:

A promessa de nova experiência, capaz de esmagar, de espantar o espírito ou gelar a espinha, mas sempre animadora, é o ponto a ser realçado na venda de alimentos, bebidas, carros cosméticos, óculos, pacotes de feriado. Cada um acena com a perspectiva de “viver a fundo” sensações nunca experimentadas antes e mais intensas do que qualquer antes provada. (idem)


            Tudo isso provoca um comportamento assemelhado à toxicomania, onde o usuário de determinada substância que age sobre seu psiquismo, necessita de doses cada vez mais frequentes e em maior quantidade para satisfazer-se, chegando assim a uma experiência momentânea de “felicidade”, ainda que seus efeitos possam se mostrar devastadores.
             Logo, é interessante que percebamos que a ideia de felicidade, a qual nos vai sendo imposta, leva-nos a cultivar e desenvolver, passivamente, elementos de uma conduta hedonista, onde buscamos aquilo que nos dá prazer, que nos faz sentir confortáveis, que nos proporciona “lucro”. Este conceito de felicidade identifica-se à visão ética do utilitarismo do filósofo, pensador político e ativista liberal inglês John Stuart Mill. Segundo Mill:

A doutrina que aceita a Utilidade ou o Princípio da Maior Felicidade como o fundamento da moral, sustenta que as ações estão certas na medida em que elas tendem a promover a felicidade e erradas quando tendem a produzir o contrário da felicidade. Por felicidade entende-se prazer e ausência de dor, por infelicidade, dor e privação de prazer. (MILL, 2000, p. 30)


            Mill observa ainda que:

 (...) o prazer e a ausência de dor são as únicas coisas desejáveis como fim, e que todas as coisas desejáveis (que são tão numerosas no esquema utilitarista como em qualquer outro) são desejáveis, seja pelo prazer inerente a elas, seja como meios para promover o prazer e prevenir a dor (idem)


            Entretanto, há uma questão que fica pendente: como, então, garantir a promoção do prazer e a prevenção da dor em um mundo tão competitivo onde alguém sempre sai perdendo? E é fácil perceber que o número de perdedores é bem maior do que o daqueles que vencem.
            Ingenuidade? Idealismo? Não, o ponto não é esse. Em uma sociedade onde o conceito de solidariedade pode ser entendido como um eufemismo para barganha, o que importa é sair em vantagem, seja negociando com Deus um “espaço no céu” em troca de um gesto caridoso, seja doando daquilo que sobra para ganhar desconto nos impostos ou ainda, ganhando a simpatia de clientes, patrocinadores, fornecedores com uma imagem “marqueteada” de instituição socialmente responsável. É uma forma de nos iludirmos com a falsa impressão de que estamos felizes porque ajudamos o outro, “fizemos o bem” e assim estamos em paz com nossa consciência. Portanto, o verdadeiro alvo é o “estar em paz com a consciência”, não o outro em sua necessidade.
            J. P. Moreland afirma em seu livro “O Triângulo do Reino” que, quanto mais buscamos essas “coisas desejáveis”, ou ainda, essa ideia felicidade, mais nos voltamos para dentro de nós mesmos, o que nos afasta de toda e qualquer dedicação a atividades que exijam um espírito sacrificial, isto é, desprendimento, doação ao outro. E essas atividades, via de regra, nos obrigam a deixar nossa “zona de conforto”, a sairmos do aconchego dos casulos que confeccionamos para nós, a lidar com fatos e coisas que, normalmente, não são atrativas ou agradáveis.
            Em outras palavras, esquecermo-nos de nós mesmos, para viver a essência do “amar ao próximo como a ti mesmo” é uma experiência que pode trazer profundos incômodos e que, segundo Sigmund Freud, é contraditória à própria natureza do ser humano. Ao afirmar que o mandamento de “amar a teu próximo como a ti mesmo” exprime um dos preceitos basilares da vida civilizada (cf. BAUMAN, 2011), Freud esclarece que:

Essa exigência, conhecida em todo o mundo, é, indubitavelmente, mais antiga que o cristianismo, que a apresenta como sua reivindicação mais gloriosa. No entanto, ela não é decerto excessivamente antiga; mesmo já em tempos históricos, ainda era estranha à humanidade. Se adotarmos uma atitude ingênua para com ela, como se a estivéssemos ouvindo pela primeira vez, não poderemos reprimir um sentimento de surpresa e perplexidade. Por que deveremos agir desse modo? Que bem isso nos trará? Acima de tudo, como conseguiremos agir desse modo? Como isso pode ser possível? Meu amor, para mim, é algo de valioso, que eu não devo jogar fora sem reflexão. (FREUD, 2012, p. 20)


            Para Freud amar ao próximo como a nós mesmos, impõe-nos deveres para os quais devemos estar preparados e dispostos a cumprir mediante sacrifícios. Contudo, a contradição, referida anteriormente, reside no fato do “próximo” não ser conhecido ou semelhante a mim em quaisquer aspectos, nem sempre ser mais perfeito do que eu e, não raro, em meu entendimento, merecer meu amor.  Em outras palavras, como passar pelo sofrimento ou entregar-me de tal forma a uma causa, pelo ou com o outro, se esse estranho sequer é “parecido” comigo ou, ao menos vai aceitar ou compreender minhas razões para amá-lo, se é que eu as tenho? Logo, eu preciso de algo que fomente uma identificação, um elo entre um self que está em mim e aquele estranho a quem devo amar.
            Outro ponto a ser considerado é o fato é o amor-próprio, que só passa a existir em nós se formos amados. Segundo Bauman:

(...) para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status de objeto digno do amor – alimenta a auto-aversão. O amor-próprio é construído a partir  do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos. (BAUMAN, 2004, p. 100)


            Bauman afirma que desejamos ser respeitados, ouvidos e que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos seja levado em consideração, pois são evidências que nos asseguram, ao menos, a esperança de que somos alvo da atenção de alguém. Isso nos sustenta o amor-próprio e propicia a sensação, de que “eu ‘faço a diferença’ para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância” (BAUMAN, op cit, p. 101). Como afirma Bauman:

Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o próximo como a si mesmo” (ou seja ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo ter reconhecida, admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.[...] Amar ao próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas. (idem)


            Esse reconhecimento do entre os indivíduos e a valorização dessa singularidade que cada humano apresenta, demanda que haja um reconhecimento concomitante da igualdade entre os homens, em natureza e como portadores do direito à dignidade. E é aí que a ética do consumismo falha, não conseguindo estabelecer vínculos entre o eu e o outro. No máximo nos identificamos como consumidores, como membros de um mesmo mercado e isso não é suficiente pois, como vimos, o mercado alimenta a competição entre os homens e as instituições. Obviamente, a competição tende a expor e reforçar as diferenças, o que invariavelmente estimula o conflito.  
            Como o que importa é o prazer, a ausência de dor, e isso me leva a focar em mim, no que quero, no que sinto, no que penso, falta espaço para outras pessoas nesta relação, onde, no máximo serão agentes ou instrumentos para minha satisfação. Daí, Bauman no título de uma de suas obras, faz um questionamento que provoca de forma aguda nossa reflexão: “A ética é possível num mundo de consumidores?”
            Vale esclarecer que não estamos defendendo aqui uma proposição à luz da filosofia de alguns autores existencialistas que abraçaram a filosofia personalista de Martin Buber, na defesa que meu eu não é nada sem o seu e vice-versa, pois a autoconsciência humana não pode encontrar sentido unicamente na relação eu-tu, que se restringe “ao horizonte temporal de nossa experiência” (DOOYEWEERD, 2010, p. 79). Nossa proposta é que o sentido ético dessa relação transcende o próprio ego humano e volta-se à sua origem, a nosso ver de caráter divino, atemporal e infinito. E é por distanciar-se dessa origem, que o homem perde aquilo que poderia oferecer referências seguras para a composição deste ego. 
            Esse distanciamento dá-se, inicialmente, por um processo de rejeição ao teológico, com a sacralização da ciência, a valorização do racional, do humanismo e do antropocentrismo, desencadeados na Modernidade, mais especificamente com o Iluminismo, com o Positivismo de Comte e o materialismo de Feuerbach e Marx.
            Na pós-modernidade, o homem tenta uma reaproximação com o místico, mas de uma forma humanizada, não com o ideal de um Ser Supremo, dotado de personalidade e soberano. Essa reaproximação é feita mediante um renovado antropocentrismo, onde a interação com o Cosmos, com a natureza, visando um estado de bem-estar consigo, o que é incipiente para oferecer lastros identitários ao homem, face a fluidez da qual se reveste a vida contemporânea e seus valores.
             
A Ética Contemporânea: a fluidez dos valores de referência

            Como a ética contemporânea, em sua maior expressão e em larga escala é, como vimos, uma ética mercantilista, onde os relacionamentos estão calcados naquilo que me dá prazer, que me oferece lucro, que atende aos meus interesses, os vínculos interpessoais, mostram-se cada vez mais frágeis e os relacionamentos são permeados de descompromisso e individualismos. E como o mercado mantém uma estreita relação com o consumo, a mesma efemeridade que se verifica entre os produtos ofertados, verifica-se nos relacionamentos que passam a ser descartáveis, todas as vezes que não atenderam mais aos interesses dos envolvidos. Compreensão, renúncia, espírito sacrificial e outros valores que implicam em abdicar de nós mesmos pelo outro, passam a ser desprezados.
            Os valores são fugazes e troca-se de opinião e de necessidade com extrema facilidade. Estamos falando de “fluidez”, uma característica própria daquilo que Bauman chama de “modernidade líquida”, um tempo no qual, segundo ele:

 (...) as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam. (BAUMAN, 2007, p. 7)


            Como consequência, evidencia-se a ausência de parâmetros mais consistentes de referência. Esse processo é agravado pelo individualismo exacerbado, e um cenário onde passou-se a aceitar morte e violência, diante da justificativa do progresso científico-tecnológico, do desenvolvimento de um capitalismo selvagem, que fomenta a competitividade, a concorrência e estimula novas necessidades e desejos de consumo (GOMES, 2008). No pensamento de Gomes, “é nesse contexto de não reconhecimento, de negação do outro, que Emanuel Lévinas busca dar um sentido novo para a valorização ética do humano” (GOMES, 2008, p. 39).
            A filosofia de Lévinas alcança a percepção que o pensamento ocidental, fundado na filosofia grega, desenvolveu-se a partir da ideia do Ser, que dominou a Antiguidade e a Idade Média, e na era Moderna (até a contemporaneidade) centrando-se na ideia do Eu. Assim, Lévinas inspirado pela sabedoria bíblico-judaica, adverte quanto à urgência ética de se repensar as trilhas filosóficas com base numa visão onde o Outro seja central. Como propõe Gomes:

A partir da abertura do Eu ao Rosto do outro, na concretização da relação da ética da alteridade levinasiana, é possível vislumbrar uma possibilidade de superação da barbárie e da inumanidade da civilização contemporânea. Em outras palavras, a remoção do totalitarismo impregnado na sociedade atual [representado pela ação devastadora do mercado e do consumo] passa pela necessária transformação da subjetividade totalitária [o que chamamos de “eu consumidor”] (inserções nossas). (GOMES, op cit, p. 82)


Um Novo Paradigma de Relacionamento

            Retomando o cenário do consumismo contemporâneo, percebemos, então, que as pessoas passam a ser descartáveis por suas peculiaridades pessoais e o que temos e somos passa a determinar nosso valor. Formam-se assim, aquilo que chamamos de “relacionamentos de vitrine” onde as cores e as formas valem mais do que a essência.
            Relações duradouras e sólidas demandam tempo e interesse pelo outro, fatores sem os quais, nunca poderemos conhecer mais profundamente uma pessoa e estabelecer vínculos. No pomar, uma árvore leva um tempo de maturação para poder frutificar – como, por exemplo, a mangueira (4 anos), a jaqueira (5 anos), o abacateiro (3 anos), etc. Semelhantemente, nenhum relacionamento produz frutos de boa qualidade, possui raízes firmes e robustez suficiente para vencer as momentâneas crises, sem passar pelo crivo do tempo.
            Contudo, o tempo não é tudo na interação entre duas ou mais pessoas, pois apesar de se verem, se falarem, apertarem as mãos uns dos outros, ao longo dos anos, não significa exatamente que essas pessoas se conheçam. Conhecer implica em ir além da superfície, da casca, das casamatas que construímos para nós ou dos papéis que representamos no cotidiano.
            Conhecer exige busca, cobra tenacidade e requer paciência. Não é simplesmente identificar pelo design ou pelo rótulo, mas compreende um constante exercício de observação e comparação de gestos, olhares, sorrisos e expressões, reconhecendo o particular sentido de cada um, em cada momento. Abrange um permanente labor de analisar as palavras, mesmo aquelas que não foram ditas ou ditas de forma solta, ao léu, e atrelá-las àquilo que querem dizer, ainda que se tornem incompreensíveis a um terceiro interlocutor.
            Conhecer é reconhecer, isto é, é reaprender o outro em cada dia, em cada fase da vida, em cada sentimento. Poder-se-ia mesmo dizer que é dizer “muito prazer” diariamente. E todo esse conhecimento é importante para cada um de nós, porque dependemos dele para sobreviver ao mundo e a nós mesmos.
            Sobreviver ao mundo, porque não há como isolar-se da realidade à volta, pois mesmo que sejamos tomados de insanidade e fantasiemos sobre tudo, vivendo como os loucos, não deixamos de nos relacionar. Assim, loucos ou sãos, continuamos a nos relacionar.
            Sobreviver a nós mesmos, porque, inúmeras vezes somos implacáveis e cruéis em nossos julgamentos, egocêntricos ao referirmo-nos a nós mesmos como um padrão aferidor de sentimentos e atitudes, tremendamente, autodestrutivos, mergulhando nas regiões abissais de nosso ser, em busca de respostas às nossas inquietações, ante ao sucesso de outros ao enfrentarem a vida, ou ainda pela baixa estima que alimentamos em nosso interior.  
            Quando compreendemos que o conhecimento do outro, ao misturar-se com a perspectiva de sermos surpreendidos com algo inusitado, verdadeiramente novo, funciona como um poderoso elemento da fórmula do amor, passamos a perceber o real valor do tempo na consolidação de nossas construções afetivas e como a efemeridade e superficialidade dos encontros e das conversas cotidianas são nocivas à saúde individual, especialmente, no que diz respeito aos aspectos emocionais e psicológicos de nossa existência. Existem algumas provas desse bem-estar proveniente dessa compreensão.
            Um primeiro exemplo, é aquele composto por casamentos nos quais o diálogo e os projetos coletivos, não esmagam a individualidade e os planos individuais, proporcionando aos cônjuges ferramentas excepcionais para vencerem o tédio, o esfriamento da relação e a consequente, insatisfação, ingredientes que produzem infelicidade e que podem conduzir à infidelidade.
            O segundo exemplo repousa na vida familiar onde pais e filhos, pelo mútuo interesse e alegria em se conhecer, constroem vínculos onde o desejo de satisfazer às expectativas do outro, não eliminam nossas próprias expectativas, ao mesmo tempo que o exemplo, a sinceridade, o carinho e o compartilhar tecem os fios da confiança no outro, afastando dúvidas, inseguranças e ciúmes.
            O terceiro exemplo reflete-se na comunhão que deve estar presente na vida das comunidades eclesiásticas, não pela norma religiosa em si, contudo pela compreensão do real sentido do termo e da essência do amor divino, que se reproduz no espírito humano, a partir de uma experiência real com o Eterno.  Essa experiência permite que encontremos referências concretas para uma reconstrução identitária, onde um Outro supremo, supera o ego em sua força dominadora e permite que o eu e o outro se percebam mutuamente, um no outro. Isto está contido na ideia bíblica de que somos “imagem e semelhança divina”, ou seja, permite a igualdade ao mesmo tempo que preserva a individualidade.
            Assim, a identificação do outro como semelhante é o primeiro passo. Porém o desafio da visão cristã é ir além, considerando o outro como superior o que exige emprenho em se concentrar na necessidade do outro e na satisfação que pode advir em atender desse cuidado. Não se trata de se autoanular, contudo, quando cada um alimenta essa troca de afeto, cuidado e valorização para com o outro, a propensão é de um relacionamento equilibrado e aprazível para todos.

Conclusão

            Essas breves considerações acerca do consumismo e da ética de mercado estabelecida na contemporaneidade, apontam uma discussão vital à solidez e durabilidade dos relacionamentos, onde a principal questão a ser vista, reside na relação entre o eu e o outro.
            Isto fomenta uma revisão nos parâmetros que têm norteado nossas relações com outros indivíduos, por envolver uma dimensão da vida humana que ultrapassa a mera convivência cotidiana, mas alcança patamares que refletem na espiritualidade e no exercício do verdadeiro cristianismo.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. A ética é possível num mundo de consumidores? Tradução Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
______. Tempos líquidos. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
______. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
______. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama; revisão técnica Luís Carlos Fridman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento. Tradução Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho e Rodolfo Amorim Carlos de Souza. São Paulo: Hagnos, 2010.
FREUD, Sigmund Schlomo. O mal estar na civilização. Disponível em:  http://www.cefetsp.br/edu/eso/filosofia/malestar.html. Acesso em: 07 set 2012.
GOMES, Carla Silene Cardoso Lisbôa Bernardo. Lévinas e o outro: a ética da alteridade como fundamento da justiça. 2008. 90 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.
MILL, John Stuart. O utilitarismo. Tradução e introdução Alexandre Braga Massela. São Paulo: Iluminuras, 2000.
MORELAND, J. P. O triângulo do reino: restabelecendo a mente cristã, renovando a alma, restaurando o poder do Espírito. Tradução Jurandy Bravo. São Paulo: Editora Vida, 2011.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Consciência Cristã

Há momentos em nossa vida nos quais precisamos dar um tempo para nós mesmos. 
Parar para ouvir o que outras pessoas têm a dizer, conviver com outras perspectivas, refletir e repensar nossas ideias e convicções, mensurando tudo segundo a Palavra de Deus, o único padrão seguro em medidas espirituais.
Além disso, a caminhada espiritual exige que, vez por outra, paremos para restaurar nossas forças, comer um pedacinho de "pão", tomar um gole de "água" e colocar um pouco de azeite em possíveis arranhões que ganhamos ao longo da jornada.
Isso é natural e extremamente importante, pois, à semelhança do corpo, nossa alma e nosso espírito precisam de renovação, de um tempo para "respirar".
É impossível, pelo menos para mim, viver o azáfama permanente do ativismo que a filosofia do "tem que ser" prega e envolve o pensamento de muitos cristão hoje. Não dá, simplesmente, não dá!
E quando nós damos essa chance ao Senhor para desconstruir e reconstruir nossos conceitos, para nos conduzir por caminhos novos, para ampliar nossa visão acerca de coisas que não conseguiamos ver, ou ainda, para solidificar elementos de nossa fé, sempre no sentido de nos aperfeiçoar, de nos fazer crescer saudáveis como seus filhos, firmados na Verdade, descobrimos como são salutares esses momentos nos quais nos "desensimesmamos" e nos abrimos para novos horizontes. 
Foi com esse propósito de parar para ouvir, de sair do meio do turbilhão para um recanto onde pudesse ouvir e meditar, que fui para Campina Grande-PB, participar do evento "Consciência Cristã". E a questão não é o fato de serem esses ou aqueles preletores, de ter ou não ter tal grupo ou cantor. O ponto é saber o que se está pensando por aí, ser apenas mais um na multidão, deixar que o Senhor me achasse ali, em meio a milhares de pessoas. Aliás, essa é uma questão bem interessante: o anonimato.
Ser anônimo em um evento como aquele é uma condição que se assemelha a ser igual a todo mundo. E aí, é tremenda a sensação quando a voz do Senhor sai rasgando o ambiente à volta, entra nos teus ouvidos e desce ao nosso coração, fazendo o espírito tremer e a gente pensar sobre tudo o que Ele está nos dizendo, ao mesmo tempo que nos sentimos motivados a atender seu convite ao novo.
Novo, não significa exatamente novo. Pode representar coisas antigas que se perderam com o tempo em nossa vida, outras que foram esquecidas em um cantinho da mente. Pode até mesmo significar algo que nunca vivenciamos em decorrência de nossa displicência como cristãos. Bem, não importa! O que vale é que Ele fala conosco e isso implica em mudança, em renovo, em força para caminhar, para explorar novas paragens, para descobrir mais dEle.
Foi muito bom ter a oportunidade de ouvri a Palavra e as experiências de servos de Deus como Norman Geisler, Russel Shedd, Augustus Nicodemus, Jorge Noda, Silas Campos, Mauro Meister e tantos outros, que nos abençoaram naquele lugar com seus ministérios, dispondo-se a serem usados pelo Senhor.
Tinha a certeza que este era um convite de Jesus e não me arrependo de tê-lo atendido. Espero que no próximo ano, caso Ele me convide, eu possa estar lá novamente... comendo de Sua mesa, bebendo de Sua fonte.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

FORJANDO UMA MENTE CRISTÃ

"[...] Mas nós temos a mente de Cristo." 1Co 2.16b

          A mente humana funciona como um "centro de controle" de onde partem os comandos para o nosso corpo. Nela são processados nossos pensamentos e ideias, estão armazenados nossos sentimentos e tomamos nossas decisões mais importantes. Assim, podemos perceber a importância que ela possui em tudo aquilo que fazemos.
          Todas essas atividades estão ligadas ou ao intelecto, ou ao aspecto sentimental, sendo ambos áreas diretamente ligadas à alma humana. E neste sentido, quero esclarecer aos leitores deste post, que estou escrevendo sob uma perspectiva tricotomista, ou seja, do homem composto de corpo, alma e espírito, sem qualquer intenção de polemizar com aqueles que defendem a visão dicotomista.
          Como afirmávamos, as atividades intelectivas, sentimentais e volitivas, residem na seara da alma, contudo, precisam estar sob o domínio do espírito, no qual encontraremos elementos cruciais para uma vida em consonância com a Palavra, sobretudo no que diz respeito à consciência.
          A  consciência é responsável pelo discernimento e representa a capacidade que permite ao espírito distinguir entre o que é certo e o que é errado, bem como, sobre nossa condição diante de Deus (Sl 51.10; At 17.16; Rm 8.16). Porém, essa distinção não se dá pelo conhecimento acumulado na mente, contudo, por um julgamento espontâneo e direto. Na prática, observamos que o raciocínio humano, o qual é produzido pela mente, pode tentar justificar um ato errado cometido por nós ou por outra pessoa, no entanto, a consciência age imparcialmente e, imediatamente, levanta sua voz de advertência. 
         Retomando a questão da mente, entendemos que ela é fundamental para uma vida agradável ao Senhor, pois, como vimos inicialmente, controla nossas atividades, incluindo aquelas sobre as quais não temos o menor controle, a exemplo dos batimentos de nosso coração. Mas, o que podemos chamar de uma "vida agradável a Deus"? E que relação existe entre esse tipo de existência e a mente?
          Bem, em primeiro lugar, é interessante observarmos que a Bíblia nos mostra uma vida agradável a Deus como aquela em que há, sobretudo, santificação. E a ideia bíblica de santificação é a de "separação", que, por sua vez, representa diferença, "estar" no mundo, mas "não ser do mundo", isto é, embora vivendo aqui, manter-se como propriedade exclusiva do Senhor (Ex 19.5; 1 Pe 2.9).
          É isto que o apóstolo Paulo quer nos dizer quando recomenda que não devemos nos conformar (tomar a forma) com este mundo, mas devemos procurar ser transformados diariamente em nossa mente, para que experimentemos "a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.1,2). Assim, podemos entender essa recomendação da seguinte forma: "não sejam como o mundo, mas procurem mudar sua mente todos os dias, isto é, seus pensamentos, seus sentimentos, suas vontades e, por conseguinte, suas ações, para que vocês vivam em santificação e possam andar de forma a serem agradáveis aos olhos do Senhor".
          Esse não é um processo fácil. Requer disposição para mudar, perseverança em autoaprimorar-se, atenção para garimpar aquilo que realmente é saudável para nossa alma e nosso espírito, paciência para esperar o tempo estabelecido pelo Eterno para cada etapa de nossa vida. Logo, dá para entender que é preciso sacrificar nosso "eu", procurando ser humilde para aprender e submisso ao Senhor. 
          Só assim seremos enriquecidos, num sentido que ultrapassa a ideia de tornar-nos ricos materialmente, mas trata de aumentar, desenvolver, melhorar, ornamentar, abrilhantar, ou seja, tornar nossa vida espiritual cada dia melhor.
      Para termos maior clareza sobre esse "enriquecimento", tomemos o exemplo de uma reforma no local onde vivemos, onde temos a nossa intimidade. Geralmente o propósito é proporcionar melhores condições para nós e para quem convive nesse espaço, o que nos possibilita desfrutar melhor de nossa casa e nos torna mais felizes. 
          Quando falamos de enriquecer nossa mente como filhos de Deus, estamos tratando de melhorar a qualidade de nossos pensamentos, aprimorar nossos sentimentos, promover uma reforma interna em nós mesmos, de forma que nossos horizontes espirituais sejam ampliados. É o caminho para deixarmos de pensar pequeno, de procurar satisfazer unicamente a carne e de ter uma visão medíocre do mundo. E isso acontece, porque nossas "janelas espirituais" passam a se abrir em outra direção: na direção do Senhor.
          Como podemos fazer essa reforma?
          Reformas, para que sejam bem feitas, precisam do trabalho de um profissional qualificado para organizar nossos espaços. Alguém que siga um projeto funcional, adequado às finalidades para as quais o ambiente tenha sido construído e que proporcione qualidade de vida para as pessoas. 
          Para promovermos uma reforma espiritual em nós, precisamos permitir que o Espírito Santo organize nossos pensamentos, nossos sentimentos, nosso guarda-roupa, nossas atitudes e nossos relacionamentos. Precisamos aceitar que Ele nos conduza ao projeto original de nossa existência, conforme o Eterno elaborou. E só assim poderemos ter uma boa qualidade de vida espiritual, que nos mantenha em paz, equilibrados, felizes conosco e fazendo as demais pessoas felizes.
          É claro que isso vai gerar um tremendo desconforto em nós, pois, uma reforma produz barulho, poeira, entulho e, não raro, obriga-nos a mudar de lugar, a deixar antigos hábitos, a alterar nossa rotina. Assim, uma reforma espiritual incomoda porque somos levados a rever nossas posições, a sair de nossa zona de conforto e a sermos "quebrados" pelo Senhor, para que, desta forma, as mudanças que Ele deseja em nós ocorram. 
           O melhor de tudo isso é que, quando Ele organiza e adorna nossos espaços espirituais, enriquece nossa mente e passamos a desfrutar de um novo horizonte, onde podemos experimentar o refrigério da paz que excede todo entendimento, revestindo nosso coração e nossos sentimentos (Fp 4.7).
          Passamos a ver mais longe, acima e além das circunstâncias, através do discernimento que o Espírito nos proporciona e podemos ouvir a voz de Deus de forma muito mais intensa e nítida.
          Passamos a ter uma compreensão mais cristalina acerca do amor, uma convicção muito mais forte sobre o céu e uma busca mais intensa por Ele.
          Passamos ser gerados em Deus e a ter a mente de Cristo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conhecer a Verdade

"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" Jo 8.32

        As palavras de Jesus afirmam o poder da verdade como a chave para a libertação das prisões da ignorância espiritual. Mas, o que é a verdade? A que verdade Jesus está se referindo? Como podemos conhecer essa verdade?
         Estas questões estão intrinsecamente relacionadas a questões filosóficas de ordem milenar, o conhecimento e a verdade, que desaguam em dois outros pontos importantes, onde, o primeiro, repousa nas formas e na origem do conhecimento e, o segundo, diz respeito à validade do conhecimento.
      Em nossa breve reflexão, vamos fugir um pouco do caráter unicamente evangelístico que constumamos emprestar a essa passagem bíblica e pensar um pouco sobre a validade desse conhecimento libertador para o cristão, conhecimento que, necessariamente, segundo Jesus afirmou, precisa estar calcado na verdade, e que diz respeito a um dos questionamentos mais perturbadores e instigantes da existência humana: o que é a verdade? Vale ressaltar que estamos partindo dos pressupostos fundamentais de que a verdade existe, que sua forma absoluta está em Deus e que Ele nos transmite essa verdade através da natureza e da Sua Palavra.
      Quando observamos a "Alegoria da Caverna" de Platão (na obra "A República" - livro VII), podemos entender que o diálogo ali contido trará sobre como podemos nos libertar da escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade. É uma metáfora acerca da condição dos homens diante do mundo, quanto ao valor do conhecimento filosófico e da educação, como formas de superar a ignorância. Isto representa sair de um entendimento de mundo e de uma explicação da realidade fundados no senso comum, para uma compreensão racional, sistemática e organizada, quanto à vida e às grandes questões que nela estão envolvidas, isto é, um conhecimento fruto da reflexão e do entendimento, que não busca respostas no acaso, mas nas causas, ou seja, o conhecimento filosófico.
      Segundo  M. James Sawyer, "vivemos numa época em que a filosofia é ignorada, até mesmo por estudantes de teologia [...] A teologia e a filosofia andam lado a lado. Não se pode entender, explicar ou fazer teologia sem conhecer filosofia"(1). Para Aristóteles, o princípio de toda a Filosofia e do ato de filosofar reside no desejo que os homens têm de conhecer a verdade. Assim, se queremos conhecer a verdade e ganhar a liberdade, tal como Jesus asseverou, é necessário que nossa compreensão acerca da vida e do mundo que nos cerca não seja unicamente decorrente das "sombras" que nos projetam, a exemplo dos prisioneiros da caverna de Platão, todavia, fruto de uma reflexão consistente, do estudo sistemático da realidade e da observação acerca do mundo e da vida, com seus cenários e atores.
       Nossa busca pela verdade deve ser cuidadosa, meticulosa e bem articulada como o andar daquele que palmilha por um terreno minado, pois segundo as considerações de Norman Geisler e Peter Bocchino, "as aparências podem ser enganosas [...] Uma haste de aço imersa numa vasilha de água parece torta, mas não é torta"(2). Portanto, percebe-se o quanto é fácil nos enganarmos com relação às coisas do mundo físico. Imaginemos, então, como será para obtermos uma percepção do mundo metafísico que seja verdadeira ou a mais próximo possível da verdade. 
    Assim, verifica-se que este conhecimento, a verdade que Jesus abordava, é algo extremamente precioso, que permeia não só o espiritual, como somos tentados a acreditar, mas também pode ser percebida na natureza, se olharmos dentro de uma ótica mais contemplativa, o que fica evidente no Salmo 19, versículos 1 e 2: "os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite".
      Somente o conhecimento desta verdade pode nos esclarecer sobre a realidade do pecado humano, sobre a infalível justiça divina e sobre a concretude do juízo vindouro, elementos que estão diretamente relacionados com a liberdade espiritual do ser humano e com o fim primário da vida dos homens, a saber, a glória de Deus.
         Jesus anuncia-se como a verdade (Jo 14.6) e nele cumpriu-se toda a Lei, pois "o fim da lei é Cristo" (Rm 10.4), ou seja a revelação anterior tinha o propósito de preparar os homens para a manifestação da graça divina em Cristo. Como o apóstolo Paulo escreveu aos gálatas, "a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que, pela fé, fôssemos justificados" (Gl 3.24). Portanto, entendo que Deus não limitou a verdade às páginas dos Evangelhos ou do Novo Testamento, mas semeou-a em toda a extensão das Escrituras. 
         Porém, como conhecer esta verdade em Cristo? Bastaria a leitura da Biblia? Seria uma revelação especial do Espírito Santo através da oração? Um curso de Teologia seria o caminho para encontrarmos a verdade? Ou nada disso é necessário, basta crer?
        Devemos lembrar que, como afirmamos no início deste post, não estamos observando, essencialmente, o aspecto evangelístico-soteriológico do texto em João 8.32, o que não redunda em descurar o valor da fé salvadora em determinadas circunstâncias, que em um único segundo pode resgatar o homem de seus pecados. Todavia, nossa abordagem considera de forma mais específica, o conhecimento da verdade e sua com a liberdade espiritual de caráter mais intelectivo e filosófico. Assim, o conhecimento da "verdade que liberta", requer mais do que frequência aos cultos ou atentar para a retórica dos pregadores, vais além da mera leitura das Escrituras e do ato de decorar versículos, não se restringe à oração ou à matrícula em um seminário bíblico. Exige um aprofundamento que vai além desse conjunto de ações, englobando o estudo sistemático e constante da Palavra, a meditação permanente na "lei do Senhor", a prática cotidiana dos princípios divinos consignados na Bíblia Sagrada, a dependência da orientação do Espírito de Deus, a disposição ao diálogo com a diversidade de pensamentos a nossa volta e estar aberto às novas experiências que o Eterno queira nos proporcionar.
            Em resumo, para viver esse conhecimento sob a forma da real liberdade cristã, precisamos de uma mudança mental e de comportamento, na qual nossa visão acerca da verdade:
  • Não seja alicerçada meramente naquilo que ouvimos e vemos da parte de outras pessoas, as quais, por diversas ocasiões, adotam a postura do "faça o que eu te digo, mas não faça o que eu faço". Que tenhamos uma visão espiritual, reflexiva e profunda.
  • Não nos conduza a um estado de estagnação e engessamento tal, onde nos tornamos radicais, cegos e surdos para outras facetas da verdade, que podem e devem ser consideradas em nossa reflexão. Que nos mantenhamos firmes na fé, contudo predispostos a ouvir, aprender e prontos ao aprimoramento.
  • Não nos torne insensíveis e indiferentes às mudanças a nossa volta, de forma que não sejamos capazes de sintonizar nossa teologia à realidade contemporânea, sem que nos esqueçamos dos princípios fundamentais onde nossa fé deve estar ancorada. Que estejamos atentos ao nosso tempo, às mudanças e às necessidades éticas, sociais e, sobretudo, espirituais que lhe são próprias.
      _____________________
(1) SAWYER, M. James. Uma introdução à teologia: das questões preliminares, da vocação e do labor teológico, São Paulo: Editora Vida, 2009, p. 12.
(2) GEISLER, Norman; BOCCHINO, Peter. Fundamentos inabaláveis: respostas aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã: clonagem bioética, aborto, eutanásia, macroevolução, São Paulo: Editora Vida, 2003.

  
       
 
 
  
 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Esperar no Senhor

"Coloquei toda minha esperança no Senhor; ele se inclinou para mime ouviu meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro. Pôs um novo cântico na minha boca, um hino de louvor ao nosso Deus. Muitos verão isso e temerão ao Senhor." Sl 40.1-3 (NVI)


    Este é um texto que proclama o resultado de se esperar no Senhor, de aguardar com paciência pela providência divina, pelo momento de Deus.
     Davi exulta e relata jubiloso que o Senhor tirou-lhe de um tremedal de lama, e pondo seus pés em lugar sólido, seguro, deu-lhe firmeza no andar, como consequência de haver tomado uma atitude de fé.
      Quando se vive em um período a exemplo da atualidade, onde o imediatismo é algo que tem se inserido de forma virulenta na teologia que muitos têm seguido e proclamado, a expressão utilizada pelo salmista no primeiro versículo, "coloquei toda minha esperança no Senhor" (em outras versões, "esperei com paciência no Senhor"), parece inconcebível porque traduz um sentimento de plena confiança no socorro, na providência e na orientação divina. E isso, quase sempre requer abdicar de nossa iniciativa pessoal, refrear as vontades humanas, para agir conforme o desígnio divino.
     Contudo, esperar com paciência é mais do que ficar sentado aguardando o milagre. É preciso que tenhamos a disposição de lançar-se ao trabalho, à oração, quantas vezes forem necessárias, a fim de alcançarmos o objetivo que o próprio Deus colocou em nosso coração. Em Lucas 5.1-7, encontramos Pedro e seus companheiros envolvidos na pesada rotina dos pescadores do mar da Galiléia, provavelmente extenuados após uma noite inteira de infrutífero trabalho. Jesus, após proferir seu ensino ao povo à volta, diz a Pedro que retornem ao mar, o que aos olhos dos experiente pescadores, deveria parecer uma insanidade. O próprio Pedro argumenta: "Mestre, esforçamo-nos a noite inteira e não pegamos nada" (Lc 5.5a).
    Quantas vezes, nosso argumento não é semelhante ao empregado por Pedro? Em nossa impaciência ou imediatismo, dizemos ao Senhor que temos orado, que já fizemos isso ou aquilo, que já estamos cansados de falar a mesma coisa, de percorrer o mesmo caminho, de lutar pela mesma causa. Outras vezes, sob um ilusório argumento de fé, ficamos sentados, olhando para o vazio, "esperando que chova mel, para morrermos doces".
     Esquecemos que Pedro, embora cansado, ainda que nem acreditando muito naquilo que o Senhor dissera, resolveu que melhor que nada nas mãos, era a esperança de se obter algo, porque havia uma palavra que lhe alimentava a pequena fé. Assim, Pedro agarra-se na promessa contida na voz do Mestre e diz para Jesus: "Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes" (Lc 5.5b). E isto nos leva a refletir sobre dois pontos. 
     O primeiro fala sobre o fato de crer. Se o Senhor prometeu, Ele cumprirá (Nm 23.29) e a única forma de muitas vezes Sua promessa não se cumprir é sairmos do centro de Sua vontade. Há pessoas que afirmam que mesmo na sua infidelidade, o Senhor permanece fiel, entretanto, o pecado, a falta de arrependimento, de temor, de santidade, podem se tornar sim obstáculos para que a boa, perfeita e agradável vontade de Deus em nossa vida se cumpra. Saul, por exemplo, escolhido por Deus para ser rei sobre Israel, teve uma oportunidade áurea que não soube aproveitar, agindo contrariamente aquilo que lhe fora orientado pelo Eterno através de Samuel, sendo pois rejeitado. Perdeu a benção. Jeroboão foi outro desventurado, pois recebendo o governo das 10 tribos do norte, em lugar de conduzí-las pelo caminho do temor e da obediência ao Senhor, perdeu-se na idolatria.
    O segundo ponto reside no fato de Pedro não ter ficado parado, tentando argumentar com Jesus acerca do trabalho sem êxito que tiveram à noite, das possibilidades mínimas que, nas condições do momento, alcançarem qualquer sucesso em sua pescaria ou do cansaço que tomava conta de seu corpo. Ele foi à luta: colocou as redes no barco, içou as velas e navegou contra todas as chances, quem sabe até, sob o escárnio de outros pescadores. Devemos observar, porém, que os mesmos pescadores que talvez tenham rido de sua atitude, foram os que, chamados por ele, tiveram que ajudar a recolher as redes cheias de peixes. 
     No Salmo 125 encontramos a afirmação de que "os que confiam no Senhor são como o monte Sião, que não se pode abalar, mas permanece para sempre", ou seja, não se deixam vencer pelas dificuldades, ou porque se viram derrotados em uma batalha. Prosseguem, perseveram e mantém firme o olhar em Jesus, aguardando o cumprimento de Suas promessas.
     Eles sabem que apesar de muitas vezes, estarem em um charco horrível de tristeza, cansaço, acusações injustas, perseguições ou fragilidade, Deus não permitirá que permaneçam assim para sempre, pois têm a certeza que Ele "fortalece o cansado e dá grande vigor ao que está sem forças" (Is 40.29).
     Estão conscientes que "aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam." (Is 40.31). 
      Devemos manter viva no coração a convicção que o Eterno pode todas as coisas e que nenhum de seus planos pode ser frustrado. Portanto, mantenhamo-nos firmes, e que nada nos abale, pois, como afirmou Davi, "nossa esperança está no Senhor; ele é o nosso auxílio e a nossa proteção" (Sl 33.20).