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domingo, 25 de agosto de 2013

Igreja ou igreja?



Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18)








A expressão “edificarei a minha igreja” nas palavras de Jesus, apontam para um dos projetos mais espetaculares de Deus e um dos efeitos mais poderosos da graça divina: o estabelecimento de uma instituição que, ao longo dos séculos incorporou e incorpora a tarefa de ser a legítima representante do reino celeste na terra.
Agregar dentro de um mesmo espaço espiritual um conjunto tão diversificado de pensamentos e caracteres individuais, só poderia ser obra daquele que, sendo eterno, onipotente, onisciente e onipresente, idealizou e tornou real o universo em todas as suas dimensões. E é seguindo esse viés da multiplicidade de formas e caracteres dos indivíduos, que buscamos refletir acerca de alguns elementos fundamentais no conceito de igreja, os quais podem nos ajudar a responder, ou melhor, optar por uma das entidades que compõem o título desse texto. 
Essa entidade mística anunciada por Jesus como um edifício construído sobre o alicerce da verdade, sendo ele próprio a verdade (Jo 14.6), a “pedra de esquina” (Ef 2.20), nasceu sob a manifestação do poder divino no dia de Pentecostes e cresceu sob o fogo da perseguição, como uma semente que germinou regada pelo sangue dos mártires. A ela foi entregue a responsabilidade de anunciar o Evangelho do Reino, apresentar ao mundo a salvação em Cristo e preparar aqueles que cressem para uma eternidade com Deus.
Entendemos a Igreja como a comunidade universal de todos os que atenderam ao chamado do Espírito Santo e reconheceram a Jesus Cristo como seu legítimo Senhor e Salvador. Aqueles que se submetem aos princípios contidos nas Escrituras, buscam viver em amor, santidade e temor e adoram a Deus em espírito e em verdade, na plenitude do seu ser. Isso nos conduz à necessidade de refletir se somos realmente Igreja, isto é, se gozamos dessas características e temos parte no rebanho divino, ou se estamos enganados, perdidos como membros de uma denominação, sem possuirmos uma consciência cristã verdadeira e, por conseguinte, fora do aprisco, à margem do caminho.
Vale aqui uma ressalva de que não estamos falando em julgamento de pessoas, em aferição do nível de santidade ou de espiritualidade de quem quer que seja. A Bíblia não nos confere esta autoridade, antes nos adverte que com o juízo que que julgarmos, seremos julgados e com a medida que medirmos seremos medidos (Mt 7.2). Queremos apenas ressaltar a importância de atentarmos para a separação entre a Igreja do Senhor, a Noiva do Cordeiro, através da qual o nosso Deus é glorificado, e a igreja institucional, terrena, de caráter humano, com suas especificidades culturais, legais e doutrinárias. Estes são dois conceitos interdependentes, que, entretanto, não podem ser confundidos.
        São interdependentes porque a igreja local, através de sua pregação, suas ações e pelo fruto produzido por seus membros, deve espelhar para o mundo de forma concreta, aquilo que a Igreja universal do Senhor Jesus representa espiritualmente. Contudo, o fato de alguém ser membro, batizado em águas, possuir qualquer cargo ou função ministerial, integrar um grupo, no cerne de uma comunidade evangélica qualquer, não representa, como dissemos, que aquela pessoa seja Igreja. E é fácil compreendermos essa diferença se pararmos para meditar no texto de Lucas 13.24-27.

Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão. Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois; Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas. E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniquidade.  



Há duas expressões neste texto bíblico que nos chamam a atenção. A primeira consiste na recomendação “porfiai por entrar pela porta estreita”. Pinto, comentando sobre o contexto no qual está inserida essa passagem, onde Jesus faz alusão ao Reino de Deus, afirma que “a natureza do Reino é tal que entrar nele será o privilégio de alguns candidatos improváveis, que estavam fora da estrutura religiosa de Israel” (2008, p. 139). Se trouxermos isso para o tempo presente, dentro da realidade da igreja, podemos entender que ocorrerão muitas surpresas no dia que o Senhor da seara fizer separação entre joio e trigo. Assim, é fundamental entender que “cartão de membro” não é passe livre para o céu e que nós realmente não temos como julgar nossos irmãos, porque nossos critérios são falhos. De acordo com Pinto, a entrada para o Reino é “para aqueles que escolhem a porta estreita do discipulado” (ibid).
Esse discipulado vai além daquela classe para neófitos, onde são ensinados os rudimentos da fé e tudo “é maravilhoso e bonito”. Trata-se de viver segundo as condições que o próprio Jesus estabeleceu para sermos seus discípulos: renunciar a nós mesmos, tomar sobre nós a nossa cruz e segui-lo (Mt 16.24). Tais condições pedem posturas como renúncia, espírito de sacrifício, disciplina, submissão, perseverança, vontade e fé, as quais marcam sobremaneira o caráter de um verdadeiro cristão.
A segunda expressão a qual dedicamos atenção, reside na determinação do Senhor “apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniquidade”. Porém, antes de qualquer comentário, analisemos a palavra “iniquidade” (gr. ἀνομία = anomia) que, segundo o Dicionário Vine, significa “literalmente, ‘ilegalidade’ (formado de a, elemento de negação, e nomos, “lei”) [...] ou maldade, perversidade” (2005, p. 712).
          Praticar a iniquidade, portanto, é a “negação da lei”, ou seja, rejeitar o ensino de Cristo, que foi sintetizado por ele em dois mandamentos, como podemos ver no texto de Mateus 22. 37-40: 

Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas. 



       O padrão estabelecido por Jesus para amar a Deus carreia implicações seríssimas sobre nossa vida cristã, porque fala de um amor radical, ou seja, algo que transcende o mero sentimento de simpatia ou paixão, para se mostrar integral, incondicional, exclusivo. É uma força que se apodera de nós, gerando a necessidade premente de um relacionamento contínuo, profundo, íntimo. Esse amor dá-nos a sensação de filiação e pertencimento a Ele, produzindo temor, submissão e prazer em serví-Lo. Logo, não abre brecha para que sejamos vacilantes, duvidosos, medrosos, pois é um amor que confronta e nos coloca à prova todos os dias.
      Assim, não basta fechar os olhos, cantar um louvor com os braços erguidos e dizer que o ama, tomado de uma emoção, muitas vezes momentânea. É preciso crer nesse amor e, para que creiamos, somos provados, levados aos vales e desertos, até que fiquemos extenuados, desprovidos de esperanças humanas e desnudos de nós mesmos.
       Quando só restar a fé e a esperança nele, quando sua vida pulsar em nós como único alento para nosso espírito cansado, e então, louvarmos a Ele, por acreditarmos em sua fidelidade e que a sua misericórdia dura para sempre (Sl 100.5), brota do íntimo de nosso ser esse amor genuíno que fomentou no apóstolo Paulo a convicção de que, apesar de todas lutas e sofrimentos pelos quais passou, “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). Foi esse amor que moveu seu coração a bradar “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8.38,39). Em resumo, é um amor que nos leva ao reconhecimento de que somos um projeto divino, criados e sustentados pelo Senhor. Então passamos a compreender e a viver a verdade de que dele vem a vida e sem Ele não há vida que valha a pena ser vivida.
      Quando Jesus aborda o segundo mandamento, “amar o próximo como a ti mesmo”, é interessante recordar que ele afirma ser semelhante ao primeiro. Isto representa que amar o outro como amamos a nós mesmos, deve ser algo tão intenso e vívido em nossa existência, quanto o amor que temos ao Pai. Mesmo porque, amar ao próximo é uma decisão, uma escolha que vai importar em atitudes que deixarão evidente se realmente amamos a Deus e qual a dimensão desse amor.
O apóstolo João tinha essa compreensão e evidencia isso, claramente, ao escrever “se alguém diz: eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo 4.20,21).
       Desta forma, o amor passa a ser o grande parâmetro para que se possa conhecer quem é nascido de Deus e conhece a Deus (1 Jo 4.7,8). E não podemos esquecer que conhecer, no sentido de ter intimidade, é algo que só ocorre com aquele com quem temos proximidade, convivemos diariamente, sentimos confiança e podemos compartilhar nossos segredos mais profundos.
       Até aqui, alguém poderia dizer. “tudo bem! Eu amo meus irmãos, não alimento contendas e trato todos com urbanidade e carinho”. Entretanto, não podemos esquecer que a Igreja tem uma característica que vai demandar de nós um esforço maior para amar o outro: a diversidade. Ainda que a carta aos Efésios, em seu capítulo 4, nos fale acerca de um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai (Ef 4.4-6), o apóstolo Paulo roga aos membros daquela igreja que andem de forma humilde e mansa, recomendando-lhes que usem de longanimidade, procurando suportar uns aos outros em amor (Ef 4.2).  Essa advertência só faz sentido se refletirmos a partir da ideia das diferenças interpessoais, das interpretações, conceitos e preconceitos que cada um nutre em seu entendimento da Palavra.
       Somos seres individuais e isto é maravilhoso: saber que em toda a extensão do universo e por toda história, não houve e não há qualquer pessoa igual a nós. Porém, essa exclusividade ou individualidade da qual somos dotados, repercute na possibilidade do conflito e na necessidade de administrar nossas diferenças. E é nesse ponto que o caminho fica mais estreito, porque a proposta-mandamento do Senhor Jesus não fica só no amar ao próximo, todavia aumenta de forma extremada o nível de exigência, ao ensinar “amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.44).
        Diante desse discurso, o caminho é tirar o foco do outro, arrancar a trave de nossos olhos (Mt 7.3-5) e olhar para dentro de nós mesmos, observando a Palavra que, como nos ensina o escritor aos Hebreus “penetra até a divisão da alma e do espírito [...] e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Quando mortificamos nosso eu e promovemos uma varredura em nosso interior, abrindo aquelas “gavetinhas” onde invariavelmente, escondemos o que temos de mais terrível em nós, encontramos nossas fraquezas, nossas falhas de caráter, nossos pensamentos impuros, os pecados que, cotidianamente, cometemos, e podemos, então, compreender que não somos tão melhores que nossos semelhantes.
Fica mais claro o que Jesus quis dizer com a afirmação que o Pai faz nascer o sol sobre maus e bons, e a chuva descer sobre justo e injustos (Mt 5.45). O Senhor estava nos mostrando que diante do Pai, temos todos a mesma estatura, pois Ele não nos trata segundo nossos pecados (Sl 103.10). Não há uma meritocracia, pois a graça salvadora provém dele e foi Jesus quem estabeleceu “um novo e vivo caminho” que nos leva à sua presença (Hb 10.20).
Jesus nos aponta, ainda, que o Pai oferece as mesmas condições a todos, pois “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2.4). Mas, mesmo que aproveitemos essas condições para uma melhor colheita, não podemos nos gloriar disso, lembrando que o Espírito Santo é que nos ensina e conduz à verdade.
        Essas reflexões sobre o amor a Deus e ao próximo, nos reconduzem à visão do andar pelo caminho estreito e ao conceito de discipulado estabelecidos pelo Senhor, elementos que, obrigatoriamente, nos conduzirão à uma escolha: ou somos Igreja e refletimos a glória do Senhor em nossa forma de viver, de tratar com o outro e de encarar a obra de Deus, ou ficamos meramente como participantes de uma entidade terrena, entretanto sem comprometimento algum com o Reino, sem envolvimento real com as coisas do mundo espiritual, sem desenvolver nosso caráter cristão de forma efetiva e sem promover uma comunhão salutar e edificante com nossos irmãos de fé.
        Esta é uma escolha urgente, pois Jesus está às portas. Lembremos a parábola das dez virgens (Mt 25.1-13) e cuidemos para que não nos falte o azeite como aconteceu às virgens loucas. Façamos como a igreja em Filadélfia: mesmo tendo pouca força, guardemos em nosso coração a palavra e não neguemos por nosso testemunho o nome do Senhor.
      Só assim estaremos abrigados em Cristo, seremos Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra nós.


REFERÊNCIAS

PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
VINE, W. E.; UNGER, Merryl F.; WHITE JR., William. Dicionário Vine. 5. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2005.
 

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