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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A RENOVAÇÃO DA LIDERANÇA



         Se observarmos a postura e o discurso de muitos líderes evangélicos na atualidade, perceberemos que, em sua maioria, mais se assemelham a empresários, investidores no nicho religioso do mercado, do que propriamente, pastores aos quais foi comissionado cuidar de um rebanho que sequer lhe pertence.

            Sua preocupação com a administração de bens e recursos excede em muito o desvelo que deveriam ter com as ovelhas de sua comunidade, com a oração e com a Palavra. O marketing midiático, voltado à promoção de suas igrejas e das reuniões públicas nas quais estão presentes, alardeia milagres e sinais, como um “show místico”, onde o foco mais evidente é a solução de problemas pessoais e não a transformação da alma.

Seus discursos quase hipnóticos, recendem à sugestão psicológica, onde um amontoado de jargões extraídos de forma distorcida das Escrituras Sagradas formatam um cristianismo de auto-ajuda, totalmente desfocado da mensagem de Jesus Cristo e dos apóstolos. Mesmo os mais bem-intencionados têm caído na armadilha do crescimento quantitativo, do expansionismo infundado, das megaconstruções e eventos, sem atentar para a qualidade do que se produz.

Nunca se viu um número tão elevado de seminários, cursos, palestras e publicações voltados ao desenvolvimento de estratégias, liderança corporativa eclesiástica, crescimento de igreja e temáticas outras, que mais parecem saídas do currículo de um curso acadêmico voltado para a área gerencial.

Não é propósito desse texto despir a administração eclesiástica de seu devido valor, entretanto, provocar uma reflexão sobre a crise de espiritualidade que aflige boa parcela da liderança evangélica, mais preocupada com a conquista de espaço no “mercado da fé”, com a visibilidade de sua denominação e com a concorrência de outras igrejas cristãs, do que com a expansão e fortalecimento do Reino de Deus entre os homens. E nesse sentido, há uma disputa brutal, movida pela soberba dos homens, pela ganância desenfreada e pela falta de temor, onde muitos já não consideram os crentes de outras comunidades como irmãos porém, como “primos”, ainda que professem a fé no mesmo Jesus, leiam a mesma Bíblia e anunciem de igual forma a Salvação em Cristo.

A ética que rege a vida e as ações de muitos desses líderes é, não raro, pior do que aquela estabelecida no meio empresarial, onde um capitalismo selvagem estimula, constantemente, um comportamento moral duvidoso, cheio de trapaças, acordos às escondidas, corrupção e diversas outras atitudes antibíblicas. Seus valores e conceitos, fundam-se meramente em autopromoção, reconhecimento público e prosperidade material,  contrariando por completo a visão apresentada pelo Senhor Jesus durante seu ministério terreno.

Há nesse tipo de comportamento uma clara negação da postura adotada por Jesus durante o episódio da tentação no deserto, relatado no capítulo 4 do Evangelho segundo Mateus, quando Satanás apresenta-lhe três propostas: transformar pedras em pães, saltar do pináculo do templo e adorá-lo em troca da glória das nações.

Essa passagem é por demais relevante para a vida de um cristão, pois não se restringe a apresentar Jesus como um Salvador plenamente capaz de cumprir sua missão, o qual, como homem, foi tentado e venceu a tentação. Todavia, cada um dos momentos em que Satanás se apresenta diante do Senhor com uma proposta que visava claramente desviá-lo do propósito divino, podemos encontrar a representação de três dos maiores desafios na vida espiritual do crente, em especial daquele que exerce funções de liderança.
Ao propor que Jesus transformasse pedras em pão quando sentiu fome, a ideia do Diabo centrava-se em priorizar a satisfação dos apetites naturais, isto é, em lugar de sacrifício, de negação a si mesmo, a busca por satisfazer nossas necessidades e desejos pessoais. Isso contrariava a ideia de que a essência da verdadeira vida, não reside nas posses materiais, mas naquilo que alimenta o espírito e que é proveniente de Deus.
Um líder jamais conseguirá manter vivo e saudável o rebanho que lhe foi confiado, se sua busca reduzir-se exclusivamente à quantidade de membros, ao patrimônio material e financeiro de sua igreja. Ele precisa buscar na fonte, pela oração, pela leitura e estudo contínuo da Palavra, pastos verdejantes e águas tranquilas, primeiro para si e depois para as ovelhas. É isso que dá vida real ao rebanho e é isso que as ovelhas esperam do pastor (Sl 23.1,2).
A segunda proposta do Diabo ao Senhor Jesus foi saltar do ponto mais alto do templo em Jerusalém, confiando na promessa em Salmos 91.11,12, de que os anjos o guardariam de qualquer mal. Assim, imaginemos que esse fato ocorresse e que Jesus descesse levemente, pairando no ar até tocar o solo. A questão era a tentação de chamar a atenção sobre si, através de um prodígio excepcional, desviando a atenção do foco principal do ministério de Jesus: a mensagem que Ele trazia consigo e que, segundo Ele mesmo disse, não era sua, mas daquele que o enviara (Jo 7.16).
Se o ensino e o testemunho pessoal de um líder não forem compatíveis com as Escrituras, se a mensagem que sai do púlpito não for proveniente  do Espírito e, consequentemente, não oferecer transformação de vida interior às pessoas, conduzindo à santidade e ao serviço para o Reino, os sinais não passarão de manifestações de poder infrutíferas. Esse tipo de reunião assemelha-se aos espetáculos ofertados por ilusionistas.
A terceira e última tentação apresentada por Satanás foi oferecer a glória das nações em troca da adoração de Jesus, um fato que, tristemente, tem se materializado na vida de um considerável número de pastores. Deixam-se vencer pelos acordos políticos, empenhando as ovelhas do Senhor como moeda de troca por favores financeiros, cargos em repartições e facilidades na realização de seus projetos. Outros, buscando a notoriedade, a glória passageira do mundo, o reconhecimento público, inserem inclusive heresias no cerne de suas pregações, negociam as boas práticas e a postura moral de sua comunidade, pelo apoio de “patrocinadores”, muitas vezes descompromissados com a causa do Evangelho de Cristo. A busca, insisto, é pela glória pessoal, pelo nome em outdoors e letreiros luminosos, satisfazendo uma febre incontrolável por fama e glória. São capazes de passar por cima de tudo e de todos por um pouco de exaltação e percebe-se claramente, o culto à personalidade, que alimentam junto ao rebanho que lideram.
O ministério de um líder deve pautar-se entre outros princípios naquilo que está expresso pelo apóstolo Paulo em Filipenses 2.3,4, quando somos exortados à humildade e a não nos ocupar unicamente com nossos interesses, contudo com os outros. E Paulo, logo em seguida, nos versículos 5 a 8 do mesmo capítulo, faz referência ao exemplo do Senhor Jesus que, mesmo sendo Deus, não arrogou seus direitos como tal e anulando a si mesmo e humilhou-se ao ponto de oferecer-se em sacrifício na cruz.
O verdadeiro líder não pode e não deve esquecer que sem o Senhor, nada podemos fazer (Jo 15.5) e que o que importa é que Ele cresça e que nós diminuamos.
Esse quadro desolável que tem alcançado diversos ministérios, só poderá ser mudado a partir de uma iniciativa de pastores e líderes conscientes, piedosos, comprometidos com o Reino de Deus, dispostos a marchar contra a correnteza, inclusive com sacrifício pessoal, para que a igreja seja preservada dos “lobos ministeriais” e do adoecimento do rebanho e das novas gerações de obreiros.
Nessa ótica, entendemos que há dois caminhos fundamentais para que possamos ter uma liderança firme, constante e abundante na obra do Senhor (1 Co 15.58), em conformidade com o que está estabelecido na Bíblia Sagrada. O primeiro consiste em cada pastor, dentro de suas respectivas comunidades, buscar uma volta a três princípios essenciais para a restauração espiritual da Igreja: Unidade (de princípios, práticas e propósitos); Adoração (entrega pessoal, fidelidade, zelo no serviço e contribuição) e Edificação (louvor, oração e ensino bíblico).
O segundo caminho implica no discipulado de novas lideranças, através do trabalho de mentoria, já a partir da mocidade da igreja:
. pelo reconhecimento dos talentos individuais, procurando respeitá-los, investindo neles e atentando para seu aproveitamento no trabalho eclesiástico;
. pelo investimento na formação bíblico-teológica dos quadros de obreiros;
. pelo trabalho de acompanhamento do testemunho e de desempenho eclesiástico de cada obreiro, conjuntamente à prática do aconselhamento ministerial, familiar e pessoal; e 
. pelo estímulo ao crescimento espiritual permanente.
Temos a convicção que se observados essas duas estratégias no contexto das comunidades evangélicas, teremos a oportunidade de contemplar o surgimento de homens e mulheres movidos pelo mesmo espírito de Neemias, dispostos a reconstrução dos muros da integridade  e uma igreja mais saudável, pronta para refletir ao mundo a vida abundante que Jesus nos oferece.
 

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