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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pela fé

"Naquele dia, quando já era tarde, disse-lhes: Passemos para o outro lado. E eles, deixando a multidão, o levaram consigo, assim como estava, no barco; e havia com ele também outros barcos. E se levantou grande tempestade de vento, e as ondas batiam dentro do barco, de modo que já se enchia. Ele, porém, estava na popa dormindo sobre a almofada; e despertaram-no, e lhe perguntaram: Mestre, não se te dá que pereçamos? E ele, levantando-se, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E cessou o vento, e fez-se grande bonança. Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé? Encheram-se de grande temor, e diziam uns aos outros: Quem, porventura, é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?" Mc 4.35-41



Em geral, quando lemos ou ouvimos este texto bíblico, de imediato pensamos em milagres, no poder de Jesus para acalmar tempestades e na solução que Ele poderia dar para aquele "velho problema" que insiste em nos incomodar.
Neste caso, a ênfase encontra-se meramente na ação de Jesus, no milagre, no fato da tempestade haver cessado. E quando olhamos por esse ângulo, geralmente focamos a fraqueza e a falta de fé dos discípulos, sem nos lembrar sequer que eles eram tão humanos quanto nós e que aquela tempestade, a tribulação pela qual estavam passando, fazia parte de seu aprendizado com o Mestre.
É tremendo como esquecemos que muitas de nossas atitudes são idênticas àquelas adotadas por eles na passagem bíblica em questão. Acredito, assim, que seria interessante observarmos um pouco da conduta daqueles homens e relacioná-la a algumas questões relativas a nossa chamada.


"Passemos para a outra margem"

A determinação de Jesus era para que atravessassem o Mar da Galiléia, navegando de oeste para leste, pois ele tinha um propósito a cumprir na região de Gadara.
Devemos perceber que no início do versículo 35, o relato bíblico fala que "naquele dia, sendo já tarde (...)". Compreendo que, provavelmente, essa expressão pode significar que escurecia, já caía a noite, o que para muitos poderia representar um risco. No entanto, em nenhum momento lemos que qualquer dos discípulos tenha argumentado com o Senhor sobre a hora, sobre a segurança da travessia, sobre a possibilidade de permanecerem onde estavam e prosseguirem viagem no dia seguinte, quando houvesse luz solar. Eles simplesmente obedeceram, despediram a multidão e foram para o barco conduzindo Jesus.
Provavelmente, sua atitude de obediência, mesmo sendo correta, tenha sido resultante de uma auto-confiança, ou seja, da confiança na capacidade como navegadores, no conhecimento sobre barcos e navegação
que alguns daqueles homens possuíam como pescadores acostumados às coisas do mar. E talvez, na sua auto-confiança, na fé em seus conhecimentos náuticos, eles tenham esquecido ou desdenhado a possibilidade de uma tempestade durante a travessia.
Isso era um erro grave, porque o Mar da Galiléia, que na realidade é um lago, situa-se em uma espécie de bolsa, à época, cercado de montanhas por todos os lados. O ar quente do dia sobe e toma o lugar do ar frio das montanhas, que por ser mais pesado, desce rapidamente sobre o lago pelas ravinas, girando e rodopiando, o que agitava as águas com fortes temporais. Eles deveriam saber ou lembrar que naquela região era - e é, comum esse tipo de fenômeno.
Ainda que pareça não haver qualquer ligação com as considerações que traçamos inicialmente, é importante refletirmos sobre que motivos nos levam a fazer algo para Jesus, o porquê de fazermos isso ou aquilo. Devemos refletir, principalmente, se estamos fazendo porque Ele determinou e segue conosco, ou se estamos confiando em nossa capacidade pessoal, estamos em destaque, debaixo dos holofotes, aproveitando da fama do Mestre, como aqueles que se ufanam porque vivem pendurados em celebridades, políticos, pastores e outras pessoas de renome.
Quando confiamos em nossa capacidade, esquecemos da possibilidade concreta de enfrentarmos temporais, de atravessarmos dificuldades que querem nos arrastar num turbilhão, de termos relacionamentos difíceis de aceitarmos. Ocorre, de forma muito semelhante, quando queremos servir ao Senhor ou adorá-Lo confiando naquilo que sabemos, no que ouvimos alguém dizer ou vimos outro fazer. Acabamos por esquecer que Jesus ensinou que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade. Isto significa que essa adoração precisa nascer não da emoção, não do desejo de ser visto como um adorador, mas da urgência agradar ao Senhor, de estar com Ele. Tem que ser sincera, fruto de um coração quebrantado, humilde, santo e sedento por Deus.
Confiar em si mesmo, ensoberbecer-se pela posição exercida ou pelo fato do Senhor usar-nos como instrumentos para realizar algo, resulta em formalismos, em tirania, em falsidade, em superficialidade, em imprudência e em laços para nossa alma, coisas que nos impedem de ouvir a voz de Deus e seguir o seu conselho.
Devemos sim, obedecer, passar para a outra margem, seguir pelo mar, mesmo no escuro, por confiar, por crer, por acreditar no Senhor, na Sua Palavra, na Sua Fidelidade. A palavra nos afirma em Hb 11.6 que "sem fé, é impossível agradar a Deus", em Rm 1.17 que "o justo viverá da fé" e em 2 Tm 2.13 que "se formos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-se a Si mesmo". Precisamos crer e viver isso! Porque somente assim, crendo que todas as coisas são dEle, por Ele e para Ele, conseguiremos vencer, atravessar a tempestade, acreditar em sucesso.

"E levantou-se grande temporal de vento"

As ondas passavam por cima do barco e este já estava enchendo de água. Era uma situação desesperadora: além de estarem ameaçados de perder o barco, seu meio de sobrevivência, seu trabalho, estavam prestes a perder a própria vida.
A experiência com o mar, os anos de navegação, a confiança em seu talento para conduzir embarcações, nada disso tinha valor nesta hora, não vinha à mente daqueles homens qualquer medida eficaz que pudesse fazer o barco estabilizar e chegar em segurança na outra margem. E quando isso acontece, o medo toma conta da alma e vira desespero, o desespero afoga a esperança e quando a esperança começa a morrer, a tendência é "entregar os pontos", desistir, abandonar a luta, parar de resistir e deixar que a morte nos alcance, que o inimigo tripudie de nós.
Nesses momentos passamos a viver da amargura, do fracasso, da desilusão. Nos tornamos tristes, espinhentos, frios e intolerantes, desanimados e inertes como um cadáver, esperando para ser sepultado. Como defunto não pensa, não tem lembrança e não acredita, pois está morto, geralmente nos esquecemos que ainda resta uma esperança.
Provavelmente, a esperança esteja descansando na popa do barco; ainda que dormindo, mas está lá: serena, confiante e firme. Quando olhamos para a popa, tirando os olhos das ondas ou da água que entra no barco, podemos ver a esperança. Ainda há esperança!
No livro de Jó, capítulo 14, nos versículos de 7 a 9 está escrito:
" Porque há esperança para a árvore, que, se for cortada, ainda torne a brotar, e que não cessem os seus renovos. Ainda que envelheça a sua raiz na terra, e morra o seu tronco no pó, contudo ao cheiro das águas brotará, e lançará ramos como uma planta nova."
Os discípulos só viram o milagre quando recorreram a Jesus. Nossos talentos, nosso conhecimento, a posição que ocupamos são úteis e devem ser empregados como ferramentas que o Senhor disponibilizou para que realizemos aquilo que Ele nos mandou fazer. No entanto, nossa confiança não pode estar depositada nessas coisas: o importante é saber que Ele está conosco, que Ele segue no barco e que só Ele sabe o que deve ser feito no momento da tempestade.
A repreensão de Jesus aos discípulos chamando-lhes de "tímidos" e perguntando se ainda não tinham fé, não invalida aquilo que foi apresentado até aqui, não significa que Jesus estivesse dizendo que eles deveriam ter feito tudo, que confiassem em si. Na verdade, o Senhor transformou a ocasião em um estímulo à fé. Ele sugeriu que sua confiança estivesse depositada em Deus e que, mesmo que Ele estivesse dormindo, aqueles homens não teriam morrido.
O que Jesus queria dizer é que, se Ele havia dito que iriam para o outro lado, nada poderia impedir que eles chegassem no lugar determinado. Era necessário que eles aprendessem a confiar no poder do Senhor, para socorrê-los em momentos de crise.
Precisamos ter em mente que se assumimos uma responsabilidade, se temos uma chamada divina, se queremos servir ao Senhor com fidelidade, é necessário entender que não podemos nos sentir os donos da situação e que somente Deus é suficientemente grande para assumir o controle de tudo.
Precisamos entender que: quando assumimos o controle...Ele descansa; quando Ele assume o controle... nós descansamos.




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